O Canto do Quarto

Foto de Alberto Fragoso - De vigia
O Canto do Quarto
Beatriz Almeida Batista - 1º. A
A noite parecia suspensa e vazia. Não havia movimento algum e a umidade do ar transparecia a sensação de uma noite de inverno.
Fazia frio, mas não ventava. Provavelmente as pessoas daquela vizinhança estavam dormindo. Tudo estava tão tranqüilo, ou ao menos, assim aparentava, tão tranqüilo como uma segunda feira costumava ser.
Uma garota chorava em silêncio deitada em sua cama. O olhar vidrado, as lágrimas escorrendo. Um movimento rápido e ela estava sentada. Agora ela observava o enorme espelho na parede oposta. Ela já não se reconhecia. Seus enormes olhos azuis agora eram de um cinzento mais profundo. E seus cabelos caiam sobre os ombros, secos e opacos, mas não tão opacos quanto seus lábios. Ela tentou forçar um sorriso para o espelho, mas já não havia vida nele, e parecia mais artificial do que nunca. Concentrou seu olhar no espelho por alguns segundos, depois derrubou-o como se sentisse nojo de si própria. E talvez, sentisse.
No canto do quarto, uma garrafa de uísque, completamente vazia. Ela havia bebido durante o dia, até o anoitecer. Havia também cigarros e pílulas brancas de vários tamanhos, espalhados pelo assoalho.
Dezoito anos, sonhos, e um futuro que prometia brilhar. Tudo isso a descrevia se voltássemos no tempo. Há um tempo atrás, ela era o que se podia chamar de “menina dos olhos”. Bonita, inteligente, dedicada em tudo o que fazia, namorava um bom rapaz e seu melhor amigo era uma das pessoas mais brilhantes que ela conhecera. Morava com sua mãe, não tinha irmãos. Mas hoje, fazia exatamente dois anos que sua mãe e seu melhor amigo haviam falecido. Ela nunca havia se sentido tão perdida desde então. O namorado a abandonara alguns meses depois, e agora, ela não tinha mais ninguém.
Novamente sentada, mas dessa vez na pequena escrivaninha ao lado de sua cama, ela escrevia uma carta. As lágrimas borravam a tinta preta da caneta esferográfica. Ali, em cada palavra, em cada frase solitária, havia uma súplica, uma despedida aos poucos amigos que lhe restavam. Assinou “Renata”, mas na mente dela, aquele nome, significava “perdedora”.
Então ela caminhou até o canto do quarto, após guardar a caneta, e deixara a carta em cima da escrivaninha. Ali se sentou, no chão, junto à garrafa vazia e outros cacos de vidro quebrados no dia anterior.
Ela não podia mais suportar aquilo. Sozinha, cansada. Cansada de tudo, cansada da vida.
Olhou uma última vez pela janela entreaberta e a cortina que permanecia inerte. A noite continuava tranqüila, mas não para Renata. Sentiu o vidro frio nos seus dedos. As lágrimas caíam com mais intensidade agora. Sentia o vidro cortar sua pele como papel, mas não podia parar. Ouvia passos no andar de baixo. Sentiu o sangue escorrer pelo seu pulso fino. Mais lágrimas. Mais passos. Olhou ao redor, respirava ofegante. Ouvia gritos e batidas na porta.
“Está tudo bem”, pensou. E de repente, hesitou. Segurou seu pulso para que o sangue estancasse. Talvez aquele não fosse o dia certo. Ou talvez lhe faltasse coragem. Não se sabe ao certo. E ali, no canto do quarto, Renata adormeceu, chorando em silêncio novamente. A noite se tornara mais vazia. Renata só tinha dezoito anos, mas seus olhos eram como de uma velha cansada, repousando sozinha, esperando o fim de seus dias.

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